Gota: a doença dos reis


Você já ouviu falar sobre gota? É uma doença relativamente comum, caracterizada por episódios agudos de uma dor, vermelhidão e inchaço muito importantes normalmente em articulações periféricas (como o dedão). É uma doença relacionada a carnes, frutos do mar, cerveja, e frio, dentre outros. E durante séculos, a gota foi conhecida como a “doença dos reis”. Isso porque a doença era frequentemente associada a pessoas que tinham acesso a grandes quantidades de carne, bebidas alcoólicas e comidas consideradas luxuosas na época.
O que é a gota?
A gota é uma doença causada pelo depósito de cristais de ácido úrico nas articulações.
Esses cristais provocam uma intensa reação inflamatória e podem causar aquelas crises de dor que muitos pacientes descrevem como uma dor súbita, muito forte, acompanhada de inchaço, vermelhidão e calor na articulação. O local mais conhecido é a base do dedão do pé, mas a gota também pode acometer tornozelos, joelhos, pés, mãos e outras articulações.
E o que a alimentação tem a ver com isso?
O ácido úrico é produzido pelo nosso organismo a partir da quebra de substâncias chamadas purinas, que estão presentes naturalmente em diversos alimentos, principalmente em alguns tipos de carne e frutos do mar.
Além disso, o consumo de bebidas alcoólicas, especialmente cerveja, pode favorecer o aumento do ácido úrico e o desencadeamento de crises.
Bebidas e alimentos ricos em açúcar, particularmente aqueles com frutose, também podem contribuir para o aumento do ácido úrico.
Por isso, a alimentação pode, sim, influenciar a gota.
Mas isso não significa que a pessoa teve gota simplesmente porque “comeu errado”.
Então por que alguns pacientes têm gota mesmo se não comem tanta carne?
Porque a alimentação é apenas um dos fatores envolvidos.
A maior parte do ácido úrico é eliminada pelos rins. Algumas pessoas têm maior dificuldade em eliminar o ácido úrico, por características genéticas ou pela presença de outras condições ou uso de algumas medicações.
Além disso, fatores como obesidade e alterações metabólicas podem aumentar o risco de hiperuricemia e gota. Ou seja: duas pessoas podem ter hábitos alimentares semelhantes e ter riscos muito diferentes de desenvolver a doença.
“Mas se eu tenho gota, eu preciso cortar tudo?”
Não necessariamente.
Uma dieta extremamente restritiva nem sempre é necessária e pode ser difícil de manter. De maneira geral, é mais útil adotar uma alimentação equilibrada, reduzir o consumo excessivo de álcool e de alimentos ricos em purinas e açúcares adicionados, além de cuidar do peso e das condições de saúde associadas.
E existe um ponto muito importante:
mudanças na alimentação ajudam no controle da gota, mas não substituem o tratamento medicamentoso quando ele é indicado.
Quando existe indicação de tratamento para reduzir o ácido úrico, o objetivo é manter seus níveis adequadamente controlados e, assim, prevenir novas crises e as complicações da doença.
Afinal, por que “doença dos reis”?
A expressão ficou famosa porque, historicamente, a gota era mais observada em pessoas que tinham acesso a uma alimentação farta, com grande consumo de carne e álcool. Mas hoje sabemos que a gota não é uma doença de quem simplesmente “come demais”. Ela é uma doença metabólica, influenciada por genética, capacidade de eliminação do ácido úrico, alimentação, peso, outras doenças e medicamentos.
Então, se você tem gota, não precisa viver com medo de nunca mais comer carne ou de ser culpado por cada crise. A alimentação importa. Mas a gota é muito mais do que uma doença causada pela comida.
E é justamente por isso que o tratamento deve ser individualizado.
Dra. Karen Lima
CRM MG 86411 RQE 66505 (reumatologista)



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