Uma cerveja pode?


Muitas vezes ao longo da consulta, logo após o diagnóstico e a prescrição da medicação vem o fatídico: “Doutora, mas eu posso beber?”
E eu poderia responder simplesmente: “Depende.”
E depende mesmo, tá? Depende do dia da bebida, da medicação, da quantidade, da doença.... Mas aí você provavelmente ficaria me olhando esperando a continuação. Então vamos a ela.
A verdade é que não existe uma regra única para todas as pessoas com doenças reumáticas.
O problema pode estar na própria doença, no medicamento usado, na quantidade de álcool consumida ou na combinação de várias dessas coisas.
“Mas álcool piora doença reumática?”
Às vezes, sim. Mas não é tão simples assim. Para algumas doenças, a relação é bastante conhecida. Um exemplo clássico é a gota.
O álcool pode contribuir para o aumento do ácido úrico e, dependendo da situação, favorecer as crises. Algumas bebidas parecem ter uma relação particularmente importante com isso, como a cerveja. E aqui temos uma situação curiosa:
o paciente pode estar tomando remédio direitinho, tentando controlar o ácido úrico, e no fim de semana resolver fazer uma pequena reunião diplomática com três chopes.
A gota pode atacar mesmo assim.
E os medicamentos?
Aqui está um dos pontos mais importantes. Alguns medicamentos utilizados na reumatologia podem exigir mais cuidado com o consumo de álcool, principalmente por causa do fígado.
O exemplo mais conhecido é o metotrexato.
Ele já pode causar alterações nas enzimas hepáticas em algumas pessoas. O consumo de álcool também pode aumentar a sobrecarga hepática. Por isso, para quem usa metotrexato, a recomendação sobre álcool deve ser individualizada, levando em consideração dose, frequência do consumo, exames, outras doenças e outros medicamentos utilizados.
A mesma preocupação pode existir com outros medicamentos potencialmente hepatotóxicos, como a leflunomida. Ou seja:
não é só perguntar “posso beber usando esse remédio?”
É preciso perguntar:
quanto? com que frequência? e como está o seu fígado?
“Então quem tem doença reumática nunca mais pode beber?”
Calma.
Quem me conhece sabe que eu não sou do "nunca mais". Doença reumática não vem acompanhada automaticamente de uma carteirinha de “proibido álcool”. Para muitas pessoas, o álcool não é absolutamente contraindicado. Mas isso não significa que ele seja indiferente.
É preciso considerar qual é a doença, se ela está controlada, quais medicamentos estão sendo utilizados, os exames laboratoriais, outras condições de saúde e o padrão de consumo. E existe uma diferença importante entre:
“não é proibido”
e
“está liberado sem preocupação”.
Não são exatamente a mesma coisa.
Então se álcool é uma coisa importante para você, aborde em consulta, sem esperar julgamentos. Claro que se houver um problema ele será abordado, sem dúvidas, mas se é necessário só um ajuste, a gente conversa.
MIL VEZES MELHOR QUE A ESTRATÉGIA DE NÃO TOMAR O REMÉDIO NAQUELE DIA PORQUE VOCÊ VAI BEBER.
E os ossos?
Aqui também vale atenção.
O consumo excessivo e crônico de álcool pode prejudicar a saúde óssea e está associado a maior risco de quedas e fraturas. Para quem já tem osteoporose ou apresenta outros fatores de risco para fraturas, isso é especialmente relevante.
E tem mais uma coisa...
Muitas doenças reumáticas já podem estar associadas a um risco cardiovascular aumentado (risco de infarto, derrame cerebral, etc).
Além disso, álcool em excesso pode trazer consequências para pressão arterial, peso, metabolismo, sono e saúde cardiovascular.
Ou seja: mesmo quando o álcool não interfere diretamente na sua artrite, ele pode interferir em outras partes da sua saúde que também precisam de atenção.
Então, afinal: posso beber?
A resposta mais honesta continua sendo: depende.
Se você tem uma doença reumática, não precisa necessariamente assumir que qualquer gole de álcool é proibido. Mas também não vale interpretar “pode” como “pode à vontade”.
Antes de brindar, vale conversar com seu médico.
E se a pergunta for “Doutora, posso tomar uma cervejinha?”
Talvez a resposta seja:
“Vamos conversar sobre essa cervejinha primeiro.”
Beijinhos da sua reumato,
Karen Santos Lima
CRM MG 86411 RQE 66505



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