Cigarro e doenças reumatológicas

Onde há fumaça há fogo. Ops... inflamação.

Quando a gente fala em problemas de saúde relacionados ao cigarro, normalmente pensa logo em pulmão, câncer, infarto, AVC... (quando pensa em alguma coisa, né?).
A notícia triste que vim aqui trazer para vocês é que devemos pensar TAMBÉM na saúde das nossas articulações. Fumar está relacionado a um risco maior de desenvolver algumas doenças reumáticas, pode influenciar a atividade da doença e ainda atrapalhar a resposta ao tratamento.
E um dos exemplos mais importantes é a artrite reumatoide.
Mas o que o cigarro tem a ver com uma doença autoimune?
Dúvida genuína, claro. Parece que não to falando lé com cré; mas devemos nos lembrar de que nosso corpo é uma única unidade, e apesar do pulmão estar longe das "juntas", eles fazem parte do mesmo organismo e se relacionam. No caso de doenças autoimunes, o sistema imunológico passa a atacar estruturas do próprio organismo, e com a artrite reumatoide, pega principalmente as articulações. (Ja falamos um pouco sobre esse mecanismo aqui, e sobre artrite reumatoide aqui).
O cigarro pode favorecer alterações no sistema imunológico e aumentar processos inflamatórios. Em pessoas geneticamente predispostas, isso pode contribuir para o desenvolvimento da artrite reumatoide.
E tem um detalhe importante: a relação parece ser especialmente relevante para a forma de artrite reumatoide associada aos anticorpos anti-CCP, ou seja, aquela que a gente consegue identificar no sangue.
Mas, como sempre, não é "tem artrite quem quer, e sim quem pode". Não basta só fumar para desenvolver a doença, tem que ter predisposição genética.
E depois que a doença já apareceu?
Aí o cigarro também não ajuda. Em quem já tem artrite reumatoide, fumar está associado a maior atividade da doença e pode estar relacionado a uma resposta menos favorável a alguns tratamentos. Traduzindo do “reumatologuês”:
se a artrite já está dando trabalho, o cigarro não é exatamente o colega de equipe que você gostaria de colocar no grupo.
E existe outro ponto: pessoas com artrite reumatoide já apresentam maior risco cardiovascular (risco de infarto, derrame cerebral, etc). Como o cigarro também aumenta esse risco, juntar os dois não é uma combinação muito interessante.
E outras doenças reumáticas?
A relação entre tabagismo e doenças reumáticas não termina na artrite reumatoide. Os dois só têm uma relação mais explícita, mas o cigarro simpatiza com outros também.
Na espondiloartrite, por exemplo, o tabagismo está associado a pior evolução de alguns aspectos da doença e pode contribuir para maior dano estrutural.
Na artrite psoriásica, o tabagismo também aparece associado a desfechos menos favoráveis em diferentes estudos.
E há uma relação particularmente importante entre tabagismo e algumas manifestações de esclerose sistêmica. Isso merece atenção especial porque o cigarro pode piorar a circulação, e essas pacientes já podem apresentar fenômenos vasculares importantes, como o fenômeno de Raynaud.
Aliás, se seus dedos ficam brancos, roxos ou muito doloridos com o frio, não é uma boa ideia simplesmente colocar a mão no bolso e fingir que não viu. Vale conversar com um médico. Pode começar tirando dúvida aqui, que tem post do blog a respeito.
“Mas doutora, eu fumo pouco...”
Essa é uma frase que aparece bastante no consultório.
“Só fumo alguns cigarros.”
“Só fumo quando bebo.”
“Só fumo no fim de semana.”
O problema é que “pouco” não significa “sem risco”. Não existe quantidade segura de cigarro.
Além disso, quando estamos falando de uma doença inflamatória ou autoimune, não estamos avaliando apenas o risco de câncer de pulmão. Estamos falando também de inflamação, vasos sanguíneos, coração, pulmões, resposta ao tratamento e evolução da própria doença (como deformidades, tá?).
Por isso, para quem tem uma doença reumática, parar de fumar pode fazer parte do próprio cuidado com a doença.
E se eu já tenho artrite?
Não pense:
“Ah, já tenho a doença mesmo. Agora não adianta mais.”
Adianta, sim.
Parar de fumar continua sendo uma mudança importante em qualquer momento.
E, se você já tentou parar e não conseguiu, isso não significa falta de força de vontade.
Dependência de nicotina é um problema de saúde e pode precisar de tratamento.
Converse com seu médico e procure ajuda para fazer isso de maneira estruturada.
Porque, no fim das contas, quando o assunto é cigarro e doença reumática, existe uma recomendação que é bem simples.
E, se precisar de alguma coisa, já sabe. Estamos aqui.
Beijinhos da sua reumato.
Karen Santos Lima
CRM MG 86411
RQE 66505



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