Esclerose sistêmica
- Karen Santos Lima

- há 6 dias
- 4 min de leitura
Atualizado: há 5 dias

Você já ouviu falar em esclerose sistêmica? Talvez sim, talvez não, afinal é uma doeça considerada rara. Afeta cerca de 7,2 a 33,9 pessoas a cada 100.000 habitantes, ou seja, é bem menos prevalente que artrite reumatoide ou lupus, por exemplo. Mas para quem convive com ela (ou conhece alguém que convive), entender o que está acontecendo faz toda a diferença.
E, como sempre, com o objetivo de descomplicar a reumatologia, vamos descomplicar também a esclerose sistêmica.
O que é esclerose sistêmica?
A esclerose sistêmica é uma doença autoimune. Se você já esteve aqui antes, já sabe que nós já conversamos sobre esse tema antes (para relembrar, clique aqui). Mas basicamente, doença autoimune acontece quando o nosso sistema imune desregula de alguma forma a "ataca" o próprio corpo. No caso da esclerose sistêmica acontece uma situação especial, em que o sistema autoimune é ativo não só na parte "inflamatória", mas também na parte "cicatrizante", e tende a produzir colágeno em excesso (como se fosse uma cicatriz mesmo). Colágeno é ótimo para pele, unha, cabelo… mas, quando vem demais e no lugar errado, pode causar espessamento e endurecimento dos tecidos, como é o caso da pele e, às vezes, alterar o funcionamento de alguns órgãos internos.
Pode parecer assustador, mas entender a doença é o primeiro passo para lidar com ela de forma tranquila e eficaz.
Como ela se manifesta?
Os sintomas são variados e podem aparecer de forma lenta e gradual, além de variarem de acordo com o "tipo" de esclerose sistêmica.
Puffy fingers: Traduzindo significa dedinhos gordinhos. É isso mesmo. Os dedos ficam mais inflamados, inchados e vermelhos. É a fase inicial das alterações cutâneas, que pode progredir depois para o espessamento dos dedos.
Espessamento e endurecimento da pele: inicia-se dos dedos, ficando mais durinhos, no que a gente chama de esclerodactilia. No caso da esclerose sistêmica esse endurecimento acontece de forma progressiva para as mãos e além.

Imagem retirada do Google Imagens, mostrando esclerodactilia (espessamento da pele dos dedos) e espessamento da pele das mãos. O espessamento não é a única manifestação da doença, mas usamos ela para guiar os "tipos" da doença, como descrito abaixo:
Esclerose sistêmica forma cutâneo-limitada
Apesar do nome, não é que a doença é limitada à pele, mas pega a pele de forma limitada. O espessamento inicia-se nos dedos e progride nos braços, mas tende a parar antes dos cotovelos. Também pode ocorrer nas pernas e face, mas tende a poupar o tronco.
Esclerose sistêmica forma cutâneo-difusa
Essa pega mais difusamente a pele, com o endurecimento podendo acontecer em todo o corpo.
Importante lembrar que usamos o acometimento cutâneo como guia para classificação, mas essas diferenças tendem a acontecer no restante das manifestações também. Isso quer dizer que cada "tipo" de esclerose tem a tendência a ter um grupo de manifestações, mas isso não é regra.
Fenômeno de Raynaud: Esse tema é quentinho aqui no blog, foi o último post publicado. Relembrando, acontece uma modificação da coloração dos dedos (orelha, língua e/ou labios) com a mudança da temperatura para o frio. Em alguns casos podem ocorrer úlceras digitais (feridinhas nas pontas dos dedos).
Refluxo, azia e dificuldades digestivas: a esclerose pode afetar o trato gastrintestinal de formas variadas. Geralmente o esôfago é o mais afetado, levando a refluxo importante; mas o restante do sistema digestivo também pode pegar carona nas manifestações (dor na barriga, saciedade precoce, barriga inchada, alterações nos hábitos intestinais e até mesmo incontinência.
Sintomas respiratórios: a esclerose pode afetar o pulmão, levando a sintomas como cansaço, falta de ar, tosse e chieira.
Fraqueza muscular: pode ocorrer inflamação dos músculos, com fraqueza.
Outros: também pode afetar os rins e o coração, mas com sintomas inespecíficos e difíceis de mensurar. Nesse caso faz-se necessário o acompanhamento rematológico regular para monitorização desses sintomas.
Cada pessoa é única — algumas têm manifestações mais leves, outras podem ter sintomas mais intensos, mas todos podem ser controlados com tratamento adequado.
Mas por que isso acontece?
É uma doençados vasos e do colágeno. Na esclerose sistêmica, o sistema imunológico se empolga e começa a produzir colágeno como se estivesse “reformando a casa inteira”, mesmo quando ninguém pediu reforma. Essa produção exagerada pode endurecer tecidos como pele e vasos sanguíneos, e em alguns casos partes do trato gastrointestinal, pulmões ou coração.
Não significa que tudo isso vai acontecer com uma pessoa só, mas é por isso que o acompanhamento regular é tão importante.
E o tratamento? Tem cura?
A esclerose sistêmica não tem cura, mas TEM tratamento, e isso muda totalmente a evolução da doença.
O tratamento depende dos sintomas de cada pessoa e pode envolver:
✔ medicações que reduzem inflamação (imunossupressores) em alguns casos
✔ tratamentos para Raynaud (proteção para o frio e vasodilatadores em alguns casos)
✔ cuidado com o sistema digestivo (fracionamento de refeições, evitar comer grandes quantidades antes de dormir, evitar líquidos com as refeições, e uso de medicação, quando necessário)
✔ fisioterapia e terapia ocupacional para manter a funcionalidade das mãos mesmo com os dedinhos endurecendo
✔ hidratação e cuidados com a pele
✔ exercícios adaptados
✔ monitoramento de pulmões, coração e rins em consultas de rotina com reumatologista e exames, quando indicados
✔ estilo de vida saudável
O objetivo é manter qualidade de vida, mobilidade, circulação e prevenir complicações. E quando o acompanhamento é bem feito, a diferença é enorme.
Cuidados do dia a dia que fazem toda a diferença
💛 Crioproteção (sempre proteger o corpo, as mãos e os pés do frio)
💛 Hidratação intensa da pele
💛 Movimento diário e exercícios adaptados
💛 Evitar cigarro (ele piora a circulação e acelera progressão do fenômeno de Raynaud, por exemplo, podendo favorecer o aparecimento de feridas)
💛 Cuidado com refluxo: alimentação leve + horários regulares
São pequenos hábitos que ajudam muito no longo prazo.
E a vida com esclerose sistêmica?
A vida segue — com ajustes, com acompanhamento, mas segue cheia de possibilidades. Com tratamento adequado, informação de verdade e hábitos saudáveis, é possível viver bem e com autonomia. E eu estou aqui justamente para te ajudar nesse caminho.
Quer conversar mais sobre isso?
Se você tem sintomas, já recebeu o diagnóstico ou está com dúvidas sobre esclerose sistêmica, me acompanhe e marque uma consulta.
Vamos entender juntos o seu caso e criar um plano acolhedor, humano e personalizado para você.
Beijinhos da sua reumato,
Karen Santos Lima – Reumatologista
CRM MG 86411 / RQE 66505 // @karen.lima.reumato



Muito bem explicado, muito obrigado